Há vários anos, quando eu começava a organizar a minha cadeira de língua galega na universidade, a pessoa responsável na altura quase que montou en cólera cando descobriu que entre as leituras dos estudantes para a aprendizagem da língua havia textos de literatura infantil. Aquela pessoa tan adulta afirmou categoricamente que os estudantes universitários não podem apreender línguas com textos assim, que a escolha dos textos de leitura tem que ser feita a partir de textos ‘formais’. E como aquela pessoa ordenava e eu só organizava o curso, tive que eliminar os textos infantis com toda a dor do meu coração, mas não pôde evitar que eu seguisse a pensar que aquela pessoa era uma amargada, como as bruxas dos contos que nunca levaram un beijo na meixela e na sua infância já queriam ser adultos.

Evidentemente não me convenceu, só me impôs os seus argumentos. Ora bem, uns anos depois encontrei uma colega alemã na Universidade de Aveiro que me dixo que ela, nas suas aulas de alemão, sim se servía de textos infantis para o ensino de alemão. Essa colega, a Katrin Herget, sempre me pareceu uma excelente profissional e os argumentos que ela usa para justificar o uso dos textos infantis são os mesmos que uso eu. Basicamente refere-se a que as estruturas deste tipo de textos são, no geral, mais singelas que as dos textos de adultos, polo qual os estudantes dos cursos iniciais não têm grandes problemas para lerem-nos. Por sua vez, a frecuente presença de imagens neles ajuda à compreensão sem necessidade de explicações externas. Tão simples como isso. Ela, que provavelmente é uma fada boa, fez-me um presente delicioso que tenho na minha biblioteca pessoal. Trata-se do livro die Kanincheninseln, uma joia da literatura infantil alemã que é um prazer de ler. Ademais, esse é um dos livros que ela usa nas suas aulas de língua alemã.

Assim as cousas, eu sigo a dar voltas ao uso da literatura infantil no ensino de segundas línguas. Sigo a manter que o uso de libros infantis com estudantes universitários não é nada ofensivo, ao contrário. De facto, noutros ámbitos fi-lo e até na minha própria universidade, mas fora das aulas de galego.

E é aqui onde chego a uma coleção de míni-livros infantis alemães que conheço desde há mais de dez anos. Trata-se da coleção Pixi da editora alemã Carlsen Verlag. São uns livros de cerca de 24 páginas em tamanho míni, com pouco texto e muita ilustração. Muito do alemão que sei apreendi-o graças a estes livros e quando alguém me pede recomendação de materiais de leitura en alemão, nomeadamente em níveis elementares, sempre recomendo esta coleção.

Pixi-Buch Nr. 1670: Einstein mit der GeigeAcabo de chegar da cidade de Dresde. Logicamente fiz a minha rolda habitual às livrarias, onde comprei vários títulos infantis (desta vez todos livros de monstros, tenho uma época em que só tenho vontade de ler sobre eles). Havia muito tempo que não topava estes livros, cujo preço —e isto é o incrível— não chega a um euro. Desta vez trouxe três: Einstein mit der Geige, uma maravilha de estória onde se explica aos cativos o princípio da Teoria da Relatividade duma maneira tão simples que a pode entender qualquer um; Hansi Hase und seine Schultüte (delicioso!); e finalmente: Stella tantzt auf dem Seil. Não fai falta que diga que tenho na casa toda uma coleção de livrinhos desta série. São espetaculares e costumo relê-los de quando em vez, porque a sua leitura não me leva mais de dez minutos.

Um dos motivos polos que comecei a estudar alemão foi para ler na versão original a maravilhosa literatura infantil que se fai nessa língua. Se, ademais, podo ler estas pequenas joias por menos de um euro, valeu a pena o esforço. Reconheço que gostaria até de publicar eu mesmo este tipo de livros. Quem sabe, talvez ainda tenha vagar, pois, como se conta na história do Einstein, o tempo é relativo.

Advertisements