Fotka uživatele Xavier Frias Conde.Não foi até a minha terceira visita a Quito que descobri uma livraria alemã. Descobri-a por acaso, como se descobre as grandes coisas, por serendipidade. Como não ia reparar em um cartaz que diz Livros para a alma? E a seguir que tinha o título de alemão.

Pois é. Quando me aproximei, na montra estava uma senhora anciã a arrumar uns livros. Se calhar, tinha noventa anos, mas os seus traços eram totalmente alemães. Como já estão a adivinhar, entrei. A senhora veio atender-me imediatamente. Falava um espanhol perfeito, mas com um sotaque alemão fortíssimo. Pedi-lhe para ver os livros infatis. Comprei um por quase dez dólares.

Porém não pude evitar a tentação de falar um bocadinho com ela em alemão. Contei-lhe que estou casado com uma checa e que visito o seu país com frequência, nomeadamente Dresde. Ela explicou-me que procedia do norte, de algum lugar perto de Hamburgo. Enquanto pagava, vi que havia um livro quase escondido numa coluna de livros pendentes de serem classificados. Vi que estava escrito em hebreu. Perguntei-lhe se ela vendia também livros em hebreu. Ela não me respondeu a essa pergunta, só me disse que se tratava da Bíblia. Nesse instante, e fazendo um cálculo da sua idade, imaginei que fosse uma judia alemã fugida da perseguição dos názis. Ainda lhe disse que eu gostava do Kafka, que o tinha lido em alemão. Ela sorriu como uma menina e falou-me acerca de uma checa que morava em Quito e frequentava a sua livraria para comprar livros em alemão que depois lia para os filhos. Tudo num lindíssimo alemão a quase três mil metros de altura. Adorei a conversa.

Finalmente, paguei e fui embora. A seguir fui para um evento poético na da cultura Benjamín Carrión, mas essa já é outra história; porém, regressei para casa com cinco livros, embora eu tivesse saido com as mãos vazios. É claro que os livros me perseguem, não se importa em que língua: alemão, espanhol, ou a linguagem dos sonhos…

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