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Este texto não tenciona ser académico e foi apresentado por mim no 3ª EILIJ de Riobamba (Equador), em abril de 2019. Nele apenas recolho algumas reflexões muito pessoais do ponto de vista de quem escreve para crianças e ocasionalmente publica livros. Pode ser considerado, se calhar, um depoimento, mas insisto, é muito pessoal.

O acesso da infância aos livros é um direito humano, concretamente um direito da infância. Sem o dito acesso à LIJ, uma boa parte do futuro da infância fica em risco, pois um miúdo que lê é um adulto crítico do futuro. Isso soa mesmo perigoso. Se não se toma o costume de ler na infância, não é fácil adquirir o hábito leitor depois.

Se eu tivesse que definir qual a minha visão no geral da LIJ aos dias de hoje, diria que é um passo para a frente, um passo para atrás. É evidente que nunca na história humana se produziram tantos livros como hoje, mas há leitores para tantos livros? Chegam os livros a toda a parte? Têm todos os leitores infanto-juvenis acesso aos livros ou, pelo menos, à leitura? Acho que não, ainda estamos muito longe de poder fornecer bons materiais de leitura a qualquer criança no nosso planeta.

Encontrei nas redes sociais uma notícia recente da imprensa equatoriana onde diz que o preço dos livros aumentou porque não há leitores. Isto não é uma novidade, mas eu já me apercebi há vários anos que no Equador também os preços do papel e da imprensa são insustentáveis. O papel e a impressão sofrem uns impostos enormes, comparado com países vizinhos como a Colômbia, onde se pode editar por preços muito mais razoáveis. Aliás, no Equador mal há tipografias digitais, o qual complica muito mais o trabalho dos editores, nomeadamente os pequenos editores.

Resultado de imagen para the newyorker amazon and bookshopsPorém, aparentemente os livros para um público infanto-juvenil sim se vendem. Basta com dar uma vista de olhos a uma livraria qualquer num local importante. Em todos eles há uma seção, embora seja pequena, de livros para a infância. Eu sempre reparei nos aeroportos, que têm sempre um local de venda de livros (se calhar, a palavra livraria neste contexto é muito inexata). Neles pratica-se a venda do livro comercial que não costuma interessar nada aos docentes. De facto, se compararmos a venda que se dá neste tipo de locais frente às livrarias, acho que em muitos casos poderíamos estar a contrastar o livro literário contra ao livro comercial. Pessoalmente acho que a maioria desses livros vendidos em cadeias desse género não são precisamente bons livros do ponto de vista literário.

Trata-se, no geral de supervendas (vou utilizar esta forma para evitar o anglicismo best-seller), tal como acontece com os livros para o público adulto. Se o valor literário da imensa maioria dos supervendas é discutível na literatura para adultos, é-o mais ainda na literatura para crianças. Assim, nestas cadeias de venda de livros (mas que não são livrarias) encontramos coleções internacionais sustentadas por fortes grupos editoriais, amiúde sem um só autor, mas com uma equipa, que criam séries. A qualidade literária destes textos é, como já disse, amiúde discutível.

Neste tipo de supervendas há um predomínio das sagas. É evidente que a saga é um produto que já vem de antigo, mas a ideia atual não é senão vender “livros em série”, os editores querem fidelizar o público infanto-juvenil com séries de aventuras, como se o livro fosse um elemento de consumo semelhante a outros.

Neste contexto, não podemos esquecer que boa parte da situação atual nasce com a crise da década de 2000, a qual mudou radicalmente o panorama editorial. Antes da crise, o panorama editorial consistia em três tipos de editoras: pequenas, medianas e grandes. Depois da crise, o panorama mudou completamente, porque muitas editoras grandes e medianas desapareceram, mas uma parte delas foram compradas ou absorvidas por grandes grupos. Foi assim que surgiram as macro-editoras. Porém, como contraste, surgiram muitas micro-editoras.

Do meu ponto de vista, as micro-editoras, que são pequenas editoras independentes, são as que publicam a melhor literatura infantil, porque não visam ganhar dinheiro de qualquer forma. Para elas, a edição de livros é em boa medida uma atividade quase artesanal. Estão compostas por equipas pequenas de pessoas que tratam os livros com verdadeiro amor. Porém, por norma, o seu alcance territorial é bastante limitado, raramente ultrapassam as fronteiras estatais e com frequência têm o seu espaço de influência em territórios pequenos, como uma região.Em conclusão, embora não quero generalizar, para as macro-editoras, o livro é principalmente um produto comercial, enquanto para as micro-editoras, o livro é nomeadamente um produto cultural.

Para além do já exposto, o futuro da LIJ tem em perspectiva ainda algumas questões importantes relativas ao formato. Uma delas é a consideração do livro álbum, que para muitos peritos não é mesmo um formato próprio da LIJ, mas não vou ocupar-me dessa questão agora, apenas deixo lá a ideia. A segunda questão é o nascimento das plataformas digitais. Nem só se publicam livros em papel, mas também em formato digital. É claro que o suporte digital não aniquilará o formato em papel. Para além disso, é preciso não perder de vista formatos ainda mais recentes, que respondem ao virtual, é dizer, são textos cuja publicação apenas se dá na net, como é o caso dos blogues, dos quais agora não falarei aqui.

Outro dos reptos da LIJ são as temáticas. Precisamente é neste campo que se deram os avanços mais importantes. Desde a década de 1980 começam a aparecer temas novos que ainda hoje, na parte final da década de 2010, vão tomando corpo. A dias de hoje é normal encontrar textos que tratam de assuntos como a homossexualidade, o assédio (principalmente na escola), as famílias monoparentais, a conservação da natureza, a emigração, a morte, etc. Porém, a abertura a todas estas temáticas não é globalizada. Existe censura e alguns dos temas tratados, por exemplo a homossexualidade ou as famílias monoparentais, não são aceites em muitas editoras por motivos principalmente religiosos. Assim, a homossexualidade não é recusada nos textos portugueses, enquanto sim o é numa parte dos espanhóis. A razão disso radica em que muitas das grandes editoras espanholas pertencem a instituições religiosas, enquanto as portuguesas são totalmente laicas. Por esse motivo, é importante ter presente a autocensura de muitos autores que não tratam de temas delicados de modo a não serem recusados por determinadas editoras.

Contudo, creio que. Em toda temática é válida na LIJ. Pessoalmente nunca trato da religião. É sempre uma fo te de conflitos que não une os leitores. Qualquer um dos temas mencionados acima são universais, mas não considero que o seja a religião.

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Gianni Rodari

Precisamente a década de 1980 foi um tempo de mudança. Pessoalmente acho que Gianni Rodari é um dos grandes transformadores da LIJ. Considero que ele é o pai da LIJ contemporânea.

Um dos reflexos dessa nova LIJ que nasce nessa década é a coleção espanhola El barco de vapor, que ainda continua. Depois dela, vieram muitas outras nas letras em espanhol, também na América Latina, mas infelizmente não vejo o mesmo espírito nestas coleções como há trinta anos. Acho que a causa principal é predomínio do interesse comercial de que venho falando.

Aliás, a década de 1980 é o momento da entrada da LIJ nas salas de aulas como um elemento mais. A ideia é que ler faz parte do processo educacional, mas para isso é necessário adequar as leituras. Esta ideia é ótima, mas a sua implementação incorreta em muitas escolas está a matar o espírito inicial. Contudo, desde então existem campanhas para a incentivação da leitura, preparar-se os professores para serem agentes culturais entre outras coisas. Graças a isso, multiplicou-se o número de crianças que têm acesso à leitura, pelo menos teoricamente.

Outro momento glorioso neste processo é quando a LIJ entra na Universidade e passa a ser uma matéria de estudo. Porém, nem todos os académicos consideram que a literatura infanto-juvenil seja mesmo literatura.

Contudo, essa Arcádia feliz que mencionava antes está parcialmente prostituida trinta anos depois. Infelizmente, as macroeditoras tratam a LIJ com as mesmas técnicas de mercadagem selvagem com que tratam o livro convencional. Embora não se possa (nem se deva) generalizar, sim é certo que há importantes tendências entre este género de editoras gigantes. A primeira é a já mencionada das supervendas, a segunda é a criação de círculos fechados de autores vinculados a tal ou qual editora. Além disso, a concorrência entre as editoras por ganharem as escolas como público alvo cria amiúde autênticas guerras entre elas.

Tal tratamento da literatura infantil como um apêndice da literatura convencional faz com que em Espanha as grandes editoras mal publiquem contos e a sua produção seja quase exclusivamente novela e romance. É inexplicável do ponto de vista literário.

Porém, a generalização da LIJ resultou nefasta ao cair nas mãos de muitos pedagogos. Eles consideram que a LIJ é um  veículo ideal para a transmissão de valores. E é lá que muitos professores esquecem que a literatura é, principalmente, uma ferramenta para o entretenimento. Ninguém nega que a LIJ seja um bom meio para a transmissão de valores, mas não foi concebida para esse fim. Este triste uso da LIJ provoca que apareçam livros com histórias que são apenas histórias, sem valor literário, é dizer, não são contos.

Esta obsessão pelos valores deu-me uma ideia para uma narrativa:

━ Creo que os gustará lo que os voy a leer ━comentó la profesora a sus alumnos━. Es algo que he escrito yo y que está lleno de valores. Porque eso es lo que necesitáis vosotros estudiantes, valores. ¿Y qué mejor modo hay para que os acostumbréis a los valores que con historias?
Una de las alumnas, Rita, cogió el texto entre sus manos y lo leyó:
«Érase una vez un niño llamado Mariano, muy egoísta, que nunca quería compartir nada con sus compañeros. Mariano tenía siempre las mejores pinturas, los mejores bolis, los mejores cuadernos… También llevaba la mejor ropa. Hasta que un día le regalaron un balón. Sus compañeros le preguntaron si podían echar una partida todos juntos. Mariano, el niño egoísta, dijo que no, que no compartiría la pelota con sus compañeros durante el recreo. Por eso se quedó solo en un rincón del patio botando la pelota él solo. Pero sus compañeros hicieron un balón con sus propios jerséis y se lo pasaron en grande. Echaron un partido. Mariano los miró con envidia y entonces entendió que, si no compartía sus cosas con sus compañeros, sería infeliz. Al día siguiente, en el recreo, ofreció el balón a sus compañeros para jugar todos juntos al fútbol con su nuevo balón y sus compañeros le dijeron: “Gracias”. Y Mariano hasta marcó un gol y comprendió que compartir es muy bonito».
━ ¿Qué te parece? ━preguntó la profesora.
Rita suspiró y comentó:
━ ¿Sabe usted que puede decir lo mismo más eficazmente y sin aburrirnos?
━ No…
━ Pues observe…
«Érase una vez un niño llamado Mariano, muy egoísta, que dando patadas al balón él solo se aburrió y comprendió que compartir es muy bonito».
━ Pero, Rita, si haces eso, ya no hay cuento.
━ ¿En serio? Nunca habría dicho que ese texto suyo fuera un cuento…

Frantz Ferentz, 2014

Trata-se, portanto, de pseudo-contos que conseguem o efeito contrário que visam alcançar: que os miúdos odeiem ler.

Para as pessoas que amamos a literatura infantil é preciso continuar a caminhar no relativo à sua difusão. Há bons textos, mas não chegam a toda a parte. Ainda há escolas sem livros em muitos lugares da América Latina. Aliás, para além dos professores, é necessário envolver os pais no processo leitor. A criança copia o que vê em casa.

Xavier Frias Conde, 2019