Pensamentos bogotanos 3

Resultado de imagen para galegos na luaOs galegos gostam de dizer que há galegos em toda a parte, que se fores mesmo à lua, decerto ias encontrar algum que vivesse no satélite desde tempos remotos, emigrado, claro. Aconteceu-me que em maio do ano passado, quando fui examinar a Londres, ouvia falar galego em toda a parte porque ali na zona alta de Portobello foram dar galegos.

Pois bem, hoje (8 de fevereiro) em Bogotá, pude falar galego com o diretor da escola onde examino. E segundo falávamos, pelo corredor foram-me apresentando galegos errantes e meditabundos que trabalham em Bogotá, e todos falavam galego (cousa que não acontece na Galiza). Porém, aí não terminou a história.

Aliás, aconteceu que na última sessão de exame três dos oito estudantes que se examinavam eram galegos e falavam galego. Suspeito que o número de galegofalantes em Bogotá é, como mínimo, igual ao da Crunha. Afinal, com tanto galego na miola falei galego com a camareira, ela sim, bogotana, mas a paisana sorriu como se eu lhe falasse numa língua extraterrestre, embora lhe soasse tão doce. E se a ela lhe soava a extraterrestre é porque, com efeito, há galegos a morarem na lua desde há décadas e quem sabe se mesmo para além dela.

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Pensamentos bogotanos 2

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No hotel em que me hospedo em Bogotá, o café da parva é servido por um rapaz vestido como o Juan Valdez, o lendário cafeteiro que dá imagem aos cafés desse país. O coitado dele tem toda a facha de ser um estudante universitário que ganha a vida a servir café de mesa em mesa vestido como um labrego, com o chapeu tradicional, um fardel de coiro e os seus óculos intelectuais. Eu noto que ele se sente mal a fazer esse trabalho.

Porém, para a caraterização completa do personagem faltam alguns detalhes (felizmente para o moço), principalmente o bigode, o Juan Valdez da publicidade tem bigode e este camareiro não tem. Ademais, o jovem leva óculos, cousa que não acontece com o Juan Valdez original.

Se calhar, se fosse vestido de camareiro como o resto dos seus colegas, ia sentir-se menos mal. Porém, ele é um camareiro-bufão. Não sei quem pode ter tais ideias para vestir os empregados, mas depois de ver tamanha humilhação, vêm-me a cabeça duas certezas. A primeira é que o café de hotel é sempre uma porcalhada embora se vesta de Juan Vadez (com já comentei dantes) e a segunda é que quem sabe se Donald Tump não é como é porque em novo serviu hambúrgures vestido de mocinha bábara, enquanto ouvia berrar ao seu lado: Hamburgers first! French fried second! American pie third!

Pensamentos bogotanos 1

Fotka uživatele Xavier Frias Conde.

I

Em Bogotá também há dunkin donuts e o café é bárbaro. Quando tiverem churros até podia pensar em ficar aqui a viver uma tempada. Mas por enquanto não engano o meu padal com as arepas.

II

Sempre pensei que um ego imenso precisa de muito espaço físico, por isso um bom ególatra precisaria de dous ou até três lugares num táxi. Portanto, quando ontem entrei naquele táxi bogotano e senti que nem podia respirar porque os joelhos me batiam no peito, pensei que, nos últimos dias, me crescera o ego desproporcionadamente, mas afinal descobri que, felizmente, não se tratava disso, mas que aqueles táxis de marca japonesa que lá usam são minitáxis e que eu estou, se calhar, um bocadinho gordo…

III

Tenho comprovado que existe uma interessante relação entre a qualidade do café segundo seja degostado num bar ou num hotel. Em Espanha, o café de bar em Madrid e de hotel é nojento de grau -1 em ambos os casos. Em Portugal, o café de bar é bom de grau +2, mas o café de hotel é ruim de grau -2. Porém, na Colômbia, o café de bar é bom de grau +3, mas o café de hotel é ruim de grau -3. É preciso um estudo rigoroso de qual a razão de isto ser assim. Se calhar, deveriam permitir que os amantes do café nos hospedemos nos bares.

IV

No domingo 5 de fevereiro, uma sem-teito com problemas mentais quis acompanhar-me no meu caminho de regresso para o hotel. Para eu evitar que fosse chato demais, falei-lhe em checo. Ela deu-se conta logo que eu não entendia nada, mas mesmo assim contou-me a sua vida. Porém, embora ela falasse espanhol, eu parecia mesmo checo porque não entendia quase nada do que ela me falava, salvo que dava graças a Deus pela sua vida, pois é. Creio que me contou a sua vida em vinte minutos. Afinal, eu pronunciei a palavra: “hotel” e e tentei evitá-la. Ela ainda quis vir comigo. Imaginai que situação. Acelerei o passo, muito, até quase praticar a marcha atlética. Foi um ato ginástico, até que consegui perdê-la de vista. Acho que se encontrar uma indigente assim um par de vezes cada semana, decerto ia perder peso… mas também a dignidade.

Vade retro, fili Chomskyi

Resultado de imagen de cours de linguistique généraleSempre suspeitara que o fanatismo das religiões é extensível a outras realidades humanas. Descobri este fenómeno quando vi o comportamento de muitas pessoas que se ocupam com as línguas ameaçadas, para as quais a língua se torna uma religião e eles são os seus profetas.

Porém, o que não podia esperar é que este fanatismo extra-religioso o encontraria também noutros âmbitos. Aconteceu-me que há tempo conheci um estruturalista convicto; vou chamá-lo Ferdinand. E quando digo convicto, quero dizer que defendia os postulados do estruturalismo mais clássico, aquele dos inícios do século passado em Europa, aplicados à linguística. Durante muito tempo, trocámos livremente ideias num mero exercício intelectual. Esta situação durou mais de cinco anos, sem qualquer novidade.

Porém, aconteceu que ele, num muito breve período, sofreu uma iluminação. Sim, acho que essa é a palavra que melhor define o processo por que ele passou, iluminação no sentido budista. Notei-o porque, nas seguintes ocasiões em que combinámos para tomar café, o Ferdinand mostrou-se rígido nas suas posturas, possuidor da verdade de tudo quanto dizia, intolerante às minhas ideias e acho que tabém à cafeína. Ademais, tentou guiar-me no que ele cria que era o correto nas minhas investigações sintáticas. Embora eu tentasse discutir, ele não escutava e chegou um momento em que me disse: «Tout ce que tu fais sur ta recherche est banal» Eu fiquei de boca aberta. Como não sou uma pessoa que reaja violentamente, calei, mas não esqueço aquele seu comentário. À vista de que eu não estava pronto a mudar a linha das minhas pesquisas, o Ferdinand insultou-me da maneira mais desprezível que lhe veio à cabeça. Chamou-me gerativista, que é como chamar-me filho do Chomsky (latinize-se como Chomskyus, Chomskyi), equivalente num crente de religião monoteísta a dizer: «filho do diabo».

Resultado de imagen de old pragueOutros colegas que também conhecen o Ferdinand confirmaram-me a transformação dele. Portanto, verifiquei que não era tudo produto da minha apreensão. E foi assim como chegamos ao fim desta história, quando o Ferdinand organizou um congresso no coração da Europa, onde se recolheriam as essências do estruturalismo europeu anterior à 2ª Guerra Mundial. Nele fui autorizado a participar, mas deram-me um espaço mínimo, marginal, em que falei das minhas teorias pouco ortodoxas. Apesar do pouco tempo de que dispus, outros guardiães das essências (o Ferdinand é, sim, o grande sacerdote do Estruturalismo, mas há também outros sacerdores a formarem com ele o Grande Sinédrio), empreenderam o devoto caminho de me acusar de herege, isto é, de chomskyano. Eu limitara-me a dizer que, partindo de uma base funcional, se pode construir uma teoria gramatical que incorpore elementos gerativistas. Mas isso, filhinhos, é uma heregia se for dito no lar do estruturalismo. Como pudem mentar o diabo -perdão, o Chomsky- ali? Tremeram os alicerces e mencionou-se ao Pôncio Pilatos em versão estruturalista (não sei se referiam ao Jacobson, ao Coseriu ou a quem)

Assim, afinal descobri que o fanatismo do Ferdinand tinha uma origem psiquiátrica. Ou pelo menos essa é a minha suspeita. Quando no final do congresso eu já saía da sala, ainda tive tempo de ver umas notas pessoais dele numa cadeira. Nelas anotara a data de hoje. Mas não era de outubro de 2016, não, era de outubro de 1916. Então compreendi muitas coisas, muitas, mas só pensei que seria conveniente que o Ferdinand consultasse um psiquiatra, não fosse que um dia aparecesse em Genevra e tencionasse prosseguir não sei que aulas de Linguistica Geral…

 

Fricolétricos

Resultado de imagen de freak writerPor fim me saiu o palavro: fricolétrico. Fricolétrico/a compõe-se de “friqui” (do inglês <freak>) e “letro”, de <letra>, com variação de género (nota-se que sou filólogo). O fricolétrico é esse indivíduo (ou indivídua) que invade o FB com os seus duvidosos méritos literários, pois pratica a fricoletra. Não se confunda com escritor/escritora, que alguns há mesmo pelo FB, mas há, sem dúvida, mais fricolétricos do que escritores, por desgraça.

De facto, muitos escritores nem se manifestam (se calhar por vergonha alheia, sei lá).  Não é difícil reconhecer o fricolétrico, pois apresenta uma série de traços inconfundíveis. Assim, o fricolétrico vai para onde for com o seu livro debaixo do braço, para as pessoas o gabarem. O encontro de dois ou mais fricolétricos conclui com uma explosão silenciosa, mas que não resulta em que os objetos saiam voando. Este fenómeno é conhecido como o big bang ego, isto é, o choque de dous ou mais superegos de fricolétricos, pois respondem ao princípio prosopopéico de «não há espaço demais nesta galáxia para nós os dois».

Porém, quando já coincidem três fricolétricos, é melhor não se imaginar como pode ser a explosão, se calhar uma espécie de peido literário. A questão é que as ditas explosões costumam passar desapercebidas para o ser humano corrente (precisamente pela sua falta de elevação egóica). Aliás, o fricolétrico inclui por defeito no seu perfil a palavra poeta ou escritor no seu perfil. Usa-o como ofício e nalgum caso como título: Escritor (ou Poeta) John Smith. Aliás, na sua foto de perfil tem que sair o fricolétrico num lançamento ou numa leitura; existe também a variante extendida de aparecer o livro publicado como foto de perfil.

Un subtipo de fricolétrico é o fricoeta, que abusa textualmente da poesia, alienando-a e prostituíndo-a. A chegada da internet colocou a literatura em perigo de extinção. Como dizia, os escritores agacham-se, tentam passar por elfos, monstros das meias ou inclusive escrevedores, enquanto os fricolétricos dizem sem rubor que são “escritores”.Um dos problemas que eu tenho com os fricolétricos é que se me coam para o FB quase sem me dar conta. São uma praga. Recentemente borrei uns cem deles. Mas sei que alguns voltarão, ou bem o próprio FB sugere-me a amizade dalguns deles. Não acabam nunca, são legião, são zômbis entre letras, e como zômbis, se te beijarem, convertem-te num deles, mas o pior é que ainda não há antídoto contra a fricoletra, só choer-se em casa e não abrir nunca o FB.

As lições de Saint-Exupéry

Resultado de imagen de svatá markéta břevnovCombinara para tomar um café com o meu colega checo no mosteiro de Santa Margarida (Svatá Markéta) em Praga, no bairro de Břevnov, um lugar esplêndido, não tanto pela sua arquitetura, quanto pelo contorno. Cheguei a pé até ali atravessando um pequeno parque delicioso. Sabia que o meu colega era muito pontual, portanto despachei-me para não chegar atrasado. Quando eu estava para alcançar a porta de entrada, ele já estava entrando no complexo. Lembro que teimara em me mostrar a igreja, embora eu já a conhecesse, e assim lho comentara:

“Tanto tem”, dissera ele. “É para te iluminares um bocadinho”.

Resultado de imagen de svatá markéta břevnovNão soube como interpretar aquelas palavras do colega. Porém, fomos diretos para o bar, porque chovia. A ideia inicial era apenas tomar um café, mas ele veio com fome ou com… que sei eu. Começou a pedir, para além do café, água mineral e umas sobremesas espetaculares, sem esquecer uma água mineral com gás. Parecia que não tivesse comido em dois dias, que morria de fome, mas que podia eu fazer. Até que, em poucos minutos, comeu tudo e até me pediu para provar da minha sobremesa.

A seguir, já com o bandulho cheio, começámos a falar do que realmente nos interessava, o congresso que ia ter lugar em Praga no mês de outubro. O gajo é bem estranho, sempre o disse. Fala como um livro, quer o checo, quer o francês, tudo o contrário de mim, que gosto de falar coloquialmente. A conversa ia tomando ares de formalidade, entrámos nos pormenores do congresso que a ele tanto interessavam. Eu quisem contar-lhe o que estava a fazer com uma minha teoria gramatical em que estou a trabalhar desde há vários anos, mas ele não me atendia, só pontualizava. Reconheço que me frustrava, e mais ainda quando no momento culminante ele dixo:

“Isso que fazes é algo banal. Deixa que eu te ensine…”

O meu caráter pacífico impediu que nesse momento eu me erguesse da mesa e o mandasse a cagar (observai a expressão vulgar que utilizo aqui, que com ele não teria usado). Ademais, pediu-me que fizesse várias gestões, uma delas escrever para outro colega, este espanhol, perguntando-lhe cousas tão delicadas como se ele se pagaria a viagem ao congresso do seu próprio bolso. Eu disse-lhe que em dois dias estava isso resolvido.

Foi assim que, ao terminarmos, ele, estrategicamente, foi para a casa de banho e eu paguei (como sempre que nos encontramos). Isso é algo também próprio das pessoas maiores.

Porém, dois dias depois, a questão não estava resolvida. Em vez de escrever para o colega, eu começara uma estória infantil em que mergulhei. Foi o único que fizera durante aqueles dois dias, escrever. E claro, o meu colega checo deu-me um toque.

“Escreveste para o colega espanhol?”

“Ainda não”.

“Como assim?”

Aí foi onde lembrei as lições do Saint-Exupéry, onde sempre explicava que aos adultos há que lhes dar respostas de adulto. Como ia eu explicar a um sissudo colega universitário checo que não fizera o que me pedira porque me dedicara a escrever um conto para crianças? Se lhe tivesse dito que me tinha chegado de repente uma tradução ou que estava para perder a data limite para entregar um artigo, ele seria decerto condescendente comigo (até certo ponto). Portanto, não ia dar-lhe o motivo real, porque riria (embora fosse tão sério), por isso dei-lhe um motivo crível, uma dessas que recomenderia o Saint-Exupéry e que justificava plenamente a minha demora para fazer as gestões que ele me pedira; assim, até me permitia ganhar tempo:

“Não pude”, disse, “porque tive um ataque de hemorróides”.

E aí sim, aí o meu colega aceitou a explicação porque era uma escusa de gente grande e até os semideuses universitários podem ter hemorróides por causa da sua natureza mortal.

Estórias de um avô entre fricolétricos

Como já começo a ter tiques de avô, podo ir-vos contando estórias de experiências da minha vida. Ainda não tenho netos, mas tenho certeza que vós já me podeis escutar como escutaríeis o vosso avozinho num serão de inverno, sentados ao seu redor, se calhar cobertos com uma manta (e se houver uma cheminé, então já seria perfeito). Sim, já me sinto maior e preciso contar algumas estórias acontecidas neste último ano, nos contornos mais fricolétricos que podais imaginar.

Uma das primeiras experiências foi ter que traduzir -certamente de graça- o AK, um poeta muito fraco. Há muitos assim, sem dúvida, mas não até ao ponto de que o facto de traduzir produza diarreia. Não acreditais? Pois foi. Tive diarreia depois de traduzir aquele guicho tão nefasto que me deixou os intestinos sem flora bacteriana. Por cima, o gajo não fazia mais do que perguntar à editora que quando eu ia terminar a tradução, mas mal começava a traduzir aqueles mal chamados versos, descompunha-me todo por dentro. A minha esposa notava as minhas mudanças de humor, que oscilavam entre a frustração e a tristeza, portanto, nada de bom. Odiei aquele trabalho (bom, trabalho não foi porque não recebi qualquer ordenado por o fazer). Da editora nunca recebi um obrigado por trabalhar grátis, só um «porque demoraste tanto?». O mais engraçado é que o AK ainda deve esperar que no futuro eu lhe traduza mais alguma cousa deste tipo e… sempre de graça! Porém, acho que lho vai traduzir algum Pokémon Go e, sinceramente, o AK nem notará a diferença.

A segunda experiência é também relativa à tradução de poesia. Não gostava do que estava a traduzir, parecia-me algo que não tinha grande valor literário, mas a editora insistia que o FR era do melhor que havia no panorama madrileno. A mim parecia-me apenas um senhor com bigode que unia palavras em forma de versos. Depois de traduzir e publicar o livro, tocava apresentar o livro do indivíduo. Fomos apresentados uns momentos antes do lançamento no Matadero de Madrid. Eu esperava algumas palavras de agradecimento de sujeito polo meu trabalho -que também fizera de graça-, algo assim como «obrigado polo teu trabalho». Porém, o gajo, assim que me deu a mão, dixo-me: «Oi, uma minha amiga portuguesa que leu a tua tradução encontrou gralhas». Logicamente a minha resposta foi: «É que o livro não foi traduzido para português de Portugal, mas para português da Galiza. É que não cho dixeram?». Aí o poeta calou. Porém, quando depois, durante a leitura eu devia alternar a leitura em galego dos seus poemas em espanhol, ele esqueceu-se do mandado da editora e leu tudo seguido em espanhol, tendo-me ao seu lado como uma estátua… Afinal, a editora pediu para eu ler algo em galego, insistiu. Fizem o que me pediam, mas li em português, para semear dúvidas acerca de para que variante portugalega eu traduzira. Vi a cara de estupefato do FR. Então, se eu lia em português, traduzira ou não para português em vez de para galego? Essa deveu ser a pergunta que se fezo o poeta. Assim, a alma do FR nunca vai descansar, pois sempre terá a dúvida se eu não lhe traduziria mal o livro de propósito. Se calhar, o seu epitáfio será: «Aqui jaz um poeta que ainda não sabe para que variante foi traduzido».

E vou contar o terceiro episódio, que é o mais triste e o que pior sabor me deixou. O JG, um gajo multitarefa tornado em editor porque ficara desempregado, tinha-me publicado já vários livros infantis, onde eu punha a metade do dinheiro da tiragem. Porém, num certo momento, por motivos que não interessam, eu interrompi as minhas relações com o homem multitarefa. Daquela ficara um livro pendente para publicar. Achei que assim ficaria, suspenso, mas qual foi a minha surpreesa quando descobri que o livro fora publicado e o editor não me dera mesmo nenhuma cópia do meu livro. Logicamente, todos os livros que ele me publicou serão reeditados paulatinamente na Ianua, a minha editora, ou bem nalguma outra editora amiga, mas nunca me tinha acontecido que alguém me publicasse um livro às escondidas. Afinal, a única explicação é que o editor multitarefa sofre do complexo de Golum e que polas noites abraça o meu livro sob os lençóis enquanto murmura: «My treasure…»

Portanto, se não quereis surpreesas, editai-vos e traduzi-vos vós mesmos, porque sempre se demora um tempinho até se descobrir se se trabalha com alguém normal ou com um fricolétrico. É um conselho de avô.

Uma breve história d’O Ruivém

    A coleção O Ruivém nasceu já em 1998, há portanto 18 anos. Foi no seio do Grupo Bilbao, o coletivo de escritores de expressão galega que moram em Madrid. Foi fundada por Rafael Yáñez Jato e Xavier Frias Conde. Conta com três épocas. A primeira (1998-2002) foi a dos cadernos vencelhados ao Grupo Bilbao, quando se chegaram a publicar por volta de 20 títulos. Daquela era ainda O Roibén, mantendo a forma segundo a norma ILG-RAG do galego. A coleção viveu os seus momentos de glória com os lançamentos que na altura se faziam na livraria Sargadelos de Madrid.
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O segundo momento da coleção chega quando nasce a editora Lastura, cofundada por Xavier Frias, onde O Roibén se incorpora como uma coleção mais. Funcionou entre 2013 e 2016, dando ao prelo novamente uma vintena de autores. Os primeiros títulos mantiveram o formato de quaderno. Alguns dos velhos escritores voltam a publicar, junto com alguns novos. Porém, a experiência dos cadernos dura pouco e passa-se para um formato de livro, onde abundarão os textos bilingues, de autores em espanhol que são traduzidos para portugalego, como Ángel Guinda.
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    Durante quase três anos, saíram textos novos naquele Roibén que se moveu sempre arredor de Madrid e também com lançamentos em Portugal. Chegou-se mesmo a introduzir o catalão nas edições bilingues. Ademais, na grande maioria dos textos em galego foi empregue o galego internacional ou o português. Ademais, todos os anos, desde 2010, saiu uma antologia do grupo (embora nalgumas ocasiões fora de microficções).
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lingua de resilencia    Em 2016, Xavier Frias abandona a Lastura, mas traz O Ruivém para a Ianua, o novo projeto editorial onde continua a trabalhar com Rafa Yáñez. Este é o terceiro momento da coleção, já desvinculada do Grupo Bilbao e também da Lastura. O nome da coleção passa a ser escrito segundo a norma internacional do galego. Nesta etapa, O Ruivém continua com o seu espírito de encontro, em edições bilingues em muitos casos, mas também com os olhos postos nas Américas. Em 2016 aparecem dous títulos: Mujer ciudad ~ Mulher Cidade do poeta equatoriano José Luis Garcés e a antologia comemorativa dos 20 anos do Grupo Bilbao, Língua de Resilência.
    Esperam novos desafios. Despois de 18 anos, esta veterana coleção de poesia tem que se reinventar, mas sempre mantendo uns traços de seu: procura de boa poesia, ponto de encontro e independência. Estes três valores existem dos seus inícios e, embora mude o formato, vão manter-se enquanto existir a coleção.

Alfarrabistas

Uma dessas palavras que adoro em português é alfarrábio. Diz-se nos dicionários que procede do antropónimo al-Farábi, um intelectual de Bagdá do século X-XI. Seja como for, adoro os alfarrábios. Porém, quando eles começárom a fazer parte da minha vida não foi que até 2003, quando passei a minha primeira em Praga. Na altura eu não pretendia gastar dinheiro naquele país em livros, mais ainda tratando-se de uma língua que nem entendia daquela, o checo. Porém, com o passo do tempo, comecei a frequentar os negócios de alfarrábios, tanto que Praga virou a capital dos alfarrábios para mim. Naquela altura, comprei uma gramática em dous volumes do sânscrito que ainda conservo na casa; custou-me o equivalente a 5000 pesetas de 2003, que são 30 euros a dias de hoje, escrita em alemão.

Não sei se foi polo impulso de Praga, mas a seguir comecei a me interessar polos alfarrábios que encontrava noutras partes. Reconheço que para mim nenhuma cidade é como Praga, mas há uma outra onde existem várias lojas de livros usados que sempre que podo visito. Trata-se das lojas de alfarrabistas do Porto, concretamente na Rua das Flores. Descobri-as por acaso, acho que em 2001, quando fizem a minha primeira visita. Desde então tenho visitado esses alfarrabistas (som vários, todos seguidos, na parte final da rua) a cada visita.

12190760_1196915003686524_370177333_oPrecisamente no domingo 25 de outubro cheguei ao Porto depois de ter participado num evento literário internacional chamado Raias Poéticas em Famalicão. Cheguei de comboio ao Porto com uma escritora italiana mas residente em Lisboa. Fomos juntos almoçar por baixo da Torre dos Clérigos e, quando estávamos de retorno para São Bento (eu tinha que apanhar o avião), passámos pola segunda vez pola Rua das Flores. Talvez foi o meu despiste ou talvez foi um bonito detalhe do Universo comigo, mas quando tínhamos passado pola rua na primeira vez, os alfarrabistas tinham fechado; porém, quando voltava, um deles tinha aberto. Despedim-me da escritora italiana e entrei.

12190780_1196909753687049_39327296_oMal tenho capacidade olfativa, mas por vezes certos cheiros percebo. Um desses é o do papel velho. Fiquei envolvido por aquelas moreias de papel, por aquelas colunas de livros interruptas que nom davam alcançado o teito do local. Ao fundo, o alfarrabista lia algo. Estávamos ele e eu sós. Cumprimentamo-nos educadamente e a seguir eu dediquei-me à única cousa que se pode fazer com os alfarrábios, mas levando em conta que só dispunha de quinze minutos. Era uma escolha difícil, mas como por acaso encontrei um facsímile da Filologia Barranquenha do Leite de Vasconcelos, fiquei ali onde já estava e remexi dúzias de livros. Sentia o meu cartão de crédito a tremer no meu bolso, mas por sorte para ele, o alfarrabista não aceitava cartões. Tinha quarenta euros na carteira. Afinal só fum comprar a Filologia Barranquenha. Custava 25 euros, encontrei um bocadinho caro, mas nom ia protestar.

O alfarrabista remexeu por toda a parte mas nom tinha troco. Afinal deixou-me o livro por 20 euros. Dixo que por cinco euros mais (só tinha uma nota de dez euros para o troco dos meus quarenta euros), podia levar mais algum livro. Dixem que não, que a Ryan Air já não me deixaria passar com mais peso. E saí de ali todo contente, com um livro que como filólogo sei valorizar.

E enquanto saía, pensava que os italianos têm uma linda palavra como antiquariato para se referir a este tipo de estabelecimentos, que os alemães transformárom para Antiquariät, ou os checos para antikvariát. Porém, em espanhol existe uma expressão de que também gosto, que é libros de viejo. Sim, o velho, amiúde, tem um sabor especial, um sabor que contrai o tempo e o torna único e irrepetível.

Talvez seja por isso que os alfarrábios representam para mim um lugar mágico. Muitas narrativas tenho situado entre alfarrábios. A útima delas pode ser lida aqui.

Fisterras: Uma nova antologia do Grupo Bilbao

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A capa de Fisterras, obra de Lídia López Miguel.

Há vários meses, surgiu a hipótese de fazermos uma antologia bilíngue galego-francês para levá-la a um evento na França. Foi assim que pedim aos autores do Grupo Bilbao (GB) que me enviassem uma escolha de poemas para participarem na antologia com a ideia de serem traduzidos para francês e assim editá-los nas duas línguas. É uma tradição desde 2010 que o Grupo Bilbao publique uma antologia coletiva, de poesia ou microficção. Decorreram apenas uns meses desde a última antologia apresentada, Esferografias, e já íamos lançar-nos a um novo projeto literário com a Lastura.

Rafa Yañez

Rafa Yáñez

Porém, as cousas não saíram como estava previsto. A participação da editora, a Lastura, no evento ficou no ar. Daquela pensei que era mágoa deixar uma antologia assim esmorecer, porque já estava em marcha. Portanto, pedim ao meu grande amigo e companheiro de aventuras literárias Rafa Yáñez (veja-se aqui uma entrevista recente) que colaborasse comigo na coordenação do livro, o qual foi aceite por ele sem hesitar e preparou o limiar do livro.

Dessa maneira, propusemos aos autores continuarmos com o livro, mas apenas na versão monolíngue e com a intenção de o lançarmos para as Letras Galegas de 2015. Todos os autores aceitaram a proposta, salvo um, portanto, o livro começou a sua andaina. Porém, a nossa visão das Letras Galegas não se centra nos autores que escrevem apenas na norma ILG, mas em todos quantos escrevem em galego-português. Sob o título Fisterras, quisemos expressar que os limites do galego não existem, não são os limites do território galego. A filosofia da visão universalista da literatura galega vem recolhida na badana do livro:

O Grupo Bilbao é provavelmente o maior grupo de expressão literária galega fora da Galiza desde os inícios do século XXI. A sua andaina literária fezo com que escritores em galego, já fossem galegos ou não, espalhados pola geografia espanhola recebessem o apoio deste coletivo sedeado em Madrid. Desde há vários anos, o Grupo Bilbao celebra as Letras Galegas com um livro coletivo, onde participam nem só vários dos seus membros junto com alguns desses escritores galegos da diáspora, mas também três autores portugueses. Desta maneira, e sob o título de Fisterras, a literatura galega universal, com a presença de autores do sul do Minho, quer espalhar o conceito de fisterras, em plural, para além dos limites naturais da Galiza, porque a língua ultrapassa o território. O resultado desse desejo é este livro, onde se misturam harmonicamente autores de procedências várias, até com ortografias diversas, numa soa língua: a galego-portuguesa.

João Rasteiro

João Rasteiro

É assim que neste livro se encontram os autores habituais do Grupo Bilbao, como Luz Pichel, Manuel Pereira, Begonha Regueiro, Victória Veiguela, Ana Cibeira, Rafa Yáñez, Verónica Martínez e eu próprio, junto com outros autores que nalguma altura já têm frequentado as publicações promovidas polo grupo, como Yolanda López, Pilar Mera. Ao mesmo tempo, volta a publicar Montse Villar em galego, galega de nascimento mas residente em Salamanca, para acabar encontrando três autores portugueses, alguns dos quais têm uma intensa relação com a Galiza, mas que todos três sentem a literatura galega como uma unidade com a portuguesa na questão da língua; estes autores são João Rasteiro, Rita Capucho e Marília Lopes. A heterogeneidade está assegurada, pois trata-se de poetas com estilos, tendências e influências muito diferentes, de idades variadas, mas todos têm em comum o uso da mesma língua. De facto, junto com o verso comum, convivem prosemas, textos em prosa poética

galegos5

Como diz o texto da badana, embora seja uma soa língua, convivem duas ortografias no caso do galego. A ortografia não deveria ser um problema para avançar na crença da unidade linguística e, portanto, literária das duas beiras do Minho. E como nisso cremos, por isso apostamos.

Deixo aqui uma brevíssima mostra de poemas da antologia:

EXPRESSOS

Os teus olhos sabem a café.
Olhar vivo, vivido,
que bebo
até relamber os pousos.
Uma cunca de palavras viageiras
e segredos livres
de confusão gramatical.

Pilar Mera

[4]

Bato na sombra ingrávida da túa voz
coma unha cóbrega sen roupa,
coma o sol morno
no incendio das túas verbas abismais…
Así pouso o fume do meu alento
no teu corpo de terra crecente
agarimando o recanto
da memoria branca.

Yolanda López

[TÂNGER-LA HABANA]

Tu sonhas Tânger-La Habana
eu café Hafa

o mar as ondas
dous copos de chá

sem palavras
tu e mais eu
por este mar bravio

Rafa Yáñez